sábado, 22 de janeiro de 2011

Monólogo em Due

Sentamos no sofá. Seus olhos, sempre sedentos, mostravam um mistério que incomodava.

Eu falava constantemente sobre mim, narrava meu passado e vislumbrava meu futuro. De suas janelas ele me filmava, me media, consumia a minha existência. No entanto, ele me confundia, não revelava se aprovava ou não o meu discurso.

Inquieto eu lhe questionava. Eu o provocava para vê-lo sorrir, para ouvir ao menos um SIM ou um NÃO.

Liguei o rádio e a música italiana também falava de amor. Eu insistia na participação dele. Sempre discreto, entre sorrisos largos e frases curtas, ele reafirmava o seu estilo quieto. “E sono strani amori che / Fanno crescere e sorridere / Tra le lacrime / Quante pagine lì da scrivere / Sogni e lividi da dividere”, era o que a cantora proclamava. Forte, firme, mas ainda tão doce...

Por alguns instantes também calei minha voz, só se ouvia a voz da italiana. “... o silêncio não sustenta o peso de longos olhares recíprocos, exceto nos filmes de amor, e nem mesmo nos filme de amor porque ali, quando cessa o diálogo, o diretor sempre coloca uma música”. Foi o que disse Chico e me lembrei de Ariela e Zorza.

- E são estranhos amores que nos fazem crescer e sorrir entre lágrimas. Quantas páginas para escrever, sonhos livres para dividir. Ele me olhou e sorriu, em seguida questionou:

- O que você está dizendo?

- É mais ou menos a tradução dessa parte da música. Foi o que respondi ainda absorto. Ele sorriu novamente. Aquela foi à primeira demonstração verbal de que ele se interessava por mim.

Como todos os meus estranhos amores, aquele também havia começado em minha mente e terminava com minhas palavras, com difíceis constatações. Mais um que era abortado antes mesmo de ter a oportunidade de sobreviver.

Ao final da tarde eu o levei até o portão. Sorridente, simpático, solicito e tendo em mente a certeza de que não atenderia mais seus telefonemas, ou o portão caso ele ousasse voltar. Não voltaria... Eu gostaria que voltasse, que me dissesse que eu era importante, mas eu sabia, não nos veríamos mais. Tudo havia acontecido somente dentro de mim, ele era o coadjuvante do que eu acreditava ser nossa história.

Enganei-me, não era um dueto. Meus dias foram monólogo.


IMAGEM: http://4.bp.blogspot.com/_X496rBfmZEE/SGZvZV-ymdI/AAAAAAAAAIk/iaoEovQ1Q1Q/s320/banco.jpg

Um comentário:

  1. Oi Gilson, parabéns pelo lindo texto. A italiana em questão seria Laura Pausini?? rsrs

    Romântico, misterioso, intrigante, inspirador, nos leva a viajar longe. Esse é o seu post de hj.

    Um grande abraço!!!

    Danilo Moreira

    Tem post novo no meu blog: Twitter: dois lados.
    Já parou pra pensar o quanto o Twitte pode influenciar a sua vida?

    http://blogpontotres.blogspot.com/

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